Ronald Sasson: a pureza é o que sobra quando nada falta
Conversa com o designer paulista sobre pureza de detalhe como método — e sobre as peças que assina no acervo Odara.
Conversa com o designer paulista sobre pureza de detalhe como método — e sobre as peças que assina no acervo Odara.
Encontrei Ronald Sasson no ateliê dele em Pinheiros num final de tarde de março. Estava terminando o protótipo de uma cadeira nova — uma curva precisava ser refeita porque o ângulo, segundo ele, "não justificava a presença". Pedi pra ele explicar o que isso significava.
Gal Nunes: Quando você diz que uma curva "não justifica a presença", o que está acontecendo no desenho?
Ronald Sasson: Tem um momento na peça em que cada elemento precisa responder uma pergunta simples — por que ele está aí? Se não tem resposta clara, o elemento sai. Numa curva, isso vira ainda mais brutal. Porque curva é decisão. Reta é default. Curva você precisa escolher colocar.
GN: Você fala em pureza como método. Mas pureza geralmente é descrita como simplicidade — e o que você faz não é simples. É depurado. Tem diferença?
RS: Tem todo. Simples é sinônimo de pobre, no fim. Eu vejo móvel simples e penso "ok, mas e daí?". A pureza tem outra natureza: é o que sobra quando você fez todo o trabalho de tirar — não quando você poupou trabalho. Uma cadeira pura tem encosto curvo porque o corpo pediu, não porque ficou bonito. Tem assento em altura específica porque a perna humana tem comprimento médio mensurável, não porque "está na proporção". Cada decisão tem origem fora do gosto.
GN: Mas na sua linha tem decisões que são gosto puro — a Provence, por exemplo. As proporções daquela poltrona são quase desafiadoras.
RS: A Provence é uma poltrona em conversa com Sergio Rodrigues. Eu desenhei ela depois de três anos olhando a Mole. A Mole é o monumento — eu não queria fazer Mole. Queria fazer outra coisa que conseguisse ocupar o mesmo cômodo sem disputar protagonismo com o Sergio. Aí o desenho ficou mais contido, mais geométrico. As proporções vieram desse exercício de não tropeçar no monumento.
A pureza tem outra natureza: é o que sobra quando você fez todo o trabalho de tirar — não quando você poupou trabalho.
GN: A Provence sai em três madeiras — jequitibá, freijó, sucupira. Cada uma muda o caráter da peça. Como você pensa essa decisão?
RS: Madeira pra mim é personagem, não material. Jequitibá é uma poltrona quase clássica, sóbria, branda. Em freijó ela ganha uma luminosidade, fica mais leve visualmente. Em sucupira vira escultórica, pesada, dramática. Não é a mesma poltrona em três opções de cor — são três peças que compartilham geometria. Falo isso pros clientes: se você está em dúvida entre as três, o problema não é falta de informação. É que você ainda não decidiu que casa quer.
GN: Você trabalha tanto solo quanto via marcas — Arti, Hadra. Como você equilibra isso?
RS: Solo é onde eu testo. Marca é onde eu escalo. Quando uma peça funciona em prototipo no ateliê, eu posso decidir se ela é uma série pequena que sai daqui mesmo ou se ela tem vocação industrial e vai pra uma marca que tem estrutura pra fazer cinquenta por mês. Isso é decisão a frio — sem romantismo. Tem peças minhas que são solo porque jamais escalariam, e tem outras que precisam de uma marca pra existir comercialmente. O importante é não confundir.
GN: Como você vê o design brasileiro nos próximos dez anos?
RS: Vejo duas frentes acontecendo ao mesmo tempo. A primeira é a profissionalização da curadoria — gente como você que nomeia, escreve, contextualiza. Isso é novo. Há vinte anos era um pouco mais do que vitrine de loja. Hoje tem texto, tem critério. A segunda é a entrada de uma geração mais nova que cresceu vendo design como linguagem possível, não como hobby. Eles vão ser bem diferentes do que eu sou. Vou ser velho rápido — e tudo bem.
Saímos do ateliê dele às sete e pouco. A curva ainda não estava resolvida. Vou voltar daqui a duas semanas.
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