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Entrevista

Ronald Sasson: a pureza é o que sobra quando nada falta

Conversa com o designer paulista sobre pureza de detalhe como método — e sobre as peças que assina no acervo Odara.

Gal Nunes·12 de abril de 2026·3 min de leitura

Encontrei Ronald Sasson no ateliê dele em Pinheiros num final de tarde de março. Estava terminando o protótipo de uma cadeira nova — uma curva precisava ser refeita porque o ângulo, segundo ele, "não justificava a presença". Pedi pra ele explicar o que isso significava.

Gal Nunes: Quando você diz que uma curva "não justifica a presença", o que está acontecendo no desenho?

Ronald Sasson: Tem um momento na peça em que cada elemento precisa responder uma pergunta simples — por que ele está aí? Se não tem resposta clara, o elemento sai. Numa curva, isso vira ainda mais brutal. Porque curva é decisão. Reta é default. Curva você precisa escolher colocar.

Pureza como subtração

GN: Você fala em pureza como método. Mas pureza geralmente é descrita como simplicidade — e o que você faz não é simples. É depurado. Tem diferença?

RS: Tem todo. Simples é sinônimo de pobre, no fim. Eu vejo móvel simples e penso "ok, mas e daí?". A pureza tem outra natureza: é o que sobra quando você fez todo o trabalho de tirar — não quando você poupou trabalho. Uma cadeira pura tem encosto curvo porque o corpo pediu, não porque ficou bonito. Tem assento em altura específica porque a perna humana tem comprimento médio mensurável, não porque "está na proporção". Cada decisão tem origem fora do gosto.

GN: Mas na sua linha tem decisões que são gosto puro — a Provence, por exemplo. As proporções daquela poltrona são quase desafiadoras.

RS: A Provence é uma poltrona em conversa com Sergio Rodrigues. Eu desenhei ela depois de três anos olhando a Mole. A Mole é o monumento — eu não queria fazer Mole. Queria fazer outra coisa que conseguisse ocupar o mesmo cômodo sem disputar protagonismo com o Sergio. Aí o desenho ficou mais contido, mais geométrico. As proporções vieram desse exercício de não tropeçar no monumento.

A pureza tem outra natureza: é o que sobra quando você fez todo o trabalho de tirar — não quando você poupou trabalho.

Madeira como personagem

GN: A Provence sai em três madeiras — jequitibá, freijó, sucupira. Cada uma muda o caráter da peça. Como você pensa essa decisão?

RS: Madeira pra mim é personagem, não material. Jequitibá é uma poltrona quase clássica, sóbria, branda. Em freijó ela ganha uma luminosidade, fica mais leve visualmente. Em sucupira vira escultórica, pesada, dramática. Não é a mesma poltrona em três opções de cor — são três peças que compartilham geometria. Falo isso pros clientes: se você está em dúvida entre as três, o problema não é falta de informação. É que você ainda não decidiu que casa quer.

GN: Você trabalha tanto solo quanto via marcas — Arti, Hadra. Como você equilibra isso?

RS: Solo é onde eu testo. Marca é onde eu escalo. Quando uma peça funciona em prototipo no ateliê, eu posso decidir se ela é uma série pequena que sai daqui mesmo ou se ela tem vocação industrial e vai pra uma marca que tem estrutura pra fazer cinquenta por mês. Isso é decisão a frio — sem romantismo. Tem peças minhas que são solo porque jamais escalariam, e tem outras que precisam de uma marca pra existir comercialmente. O importante é não confundir.

O que muda na próxima década

GN: Como você vê o design brasileiro nos próximos dez anos?

RS: Vejo duas frentes acontecendo ao mesmo tempo. A primeira é a profissionalização da curadoria — gente como você que nomeia, escreve, contextualiza. Isso é novo. Há vinte anos era um pouco mais do que vitrine de loja. Hoje tem texto, tem critério. A segunda é a entrada de uma geração mais nova que cresceu vendo design como linguagem possível, não como hobby. Eles vão ser bem diferentes do que eu sou. Vou ser velho rápido — e tudo bem.

Saímos do ateliê dele às sete e pouco. A curva ainda não estava resolvida. Vou voltar daqui a duas semanas.

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